Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

FERNANDO PESSOA - O POETA ÉBRIO

 

 

A pedido do senhor ali da mesa do canto...aqui vai :

 

"Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O fato que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o fato que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo..."

 

 

"Por isso eu tomo ópio. É um remédio  
  Sou um convalescente do Momento.  
  Moro no rés-do-chão do pensamento  
  E ver passar a Vida faz-me tédio."


publicado por Rapazes do Bessa às 00:43
De 13 com a ramada alta a 4 de Julho de 2008 às 15:37
Quando voltava para casa à noite, com a pasta debaixo do braço, entrava na leitaria da esquina da sua rua, no "Trindade", o seu amigo Trindade, rechonchudo e bom rapaz, que lhe vendia fiado (quando recebeu o prémio literário parte dele foi para o Trindade e quando morreu lá devia ainda seiscentos mil réis) e, nas pontas dos pés, com o seu ar cada vez mais dependurado, as calças a fugirem-lhe pelas pernas acima, pigarreando, enigmaticamente dizia:
« - 2, 8 e 6.»
O Trindade retirava-se. E daí a pouco poisava em cima do mármore do balcão uma caixa de fósforos, um maço de cigarros e um cálice de Macieira 60, ou seja, 2, 8 e 6 tostões. O poeta recolhia os fósforos, rasgava o maço de cigarros e virava, de um trago, o cálice de Macieira. Depois abria a pasta, retirava dela uma garrafinha preta, e punha-a em cima do balcão. O Trindade, discretamente, pegava nela, levava-a dentro e voltava daí a pouco com ela rolhada já.


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